Sinto envelhecer, envelhecer rapidamente... E, de todas as falsas rugas que tento esconder, a que mais me dói é a do saber de tudo aquilo que me é uma simples questão de vaidade. E aqui estou eu, disfarçada de humana nua. Desfrutem daquilo que minto pra mim mesma.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um conto de natal


Transtornado, vigio da janela a calçada, a rua e os transeuntes. Penso no tempo e no espaço, e penso que o tempo e o espaço são privilégios, como o pensar, o pesar e o porvir. Sua condição de existência é seu observador. Sinto que seus olhos, os dos que ainda transitam por minha rua, de vez por quando retornam a mim. E eu, observador vigiado, faço pose. Talvez ao chegarem em seu destino não recordem mais de minha face, porque sei que os olho, e quem me olha sabe também, mas só eu sei que não os vejo. Não seriam assim, os malditos semelhantes? Quem os realmente veria, afinal, além dos mesmos e únicos que preocupam-se com sua desesperada existência? Os desconhecidos que passam suaves, como belos pontos de interrogação. E eu, maior que todos, melhor que todos, os observo com minha medíocre grandiosidade de todo ser que, em sua própria insignificância, existe. Volto a mim. O calor, que antes era constante e intenso, agora cessa. A noite não venta, mas seu hálito não chega morno. Pego nos ombros, amolecidos, e hesito em desprender o cabelo. Hoje não me sinto homem ou mulher. Sinto-me como um alguém, um qualquer, o anônimo que sempre tem medo de não ter nada a dizer. Observo o céu e tento ver um céu para além de mim. Imagino meu corpo em completa ausência, em negro. O céu surge, então, como sua própria explicação, um céu que é inexistente quando se ausenta das gentes que lhe dão um significado qualquer. Tento ir além, mas a respiração atrapalha. O vizinho, em sintonia com minha tentativa de afogar-me com todo oxigênio do quarto em uma única e profunda respiração, liga o som monofônico que é chamado de música natalina em sua magnífica árvore de natal. Procrastino o céu e o deixo ao acaso, como em muitos tenho feito. Volto os olhos ao chão. Já não há ninguém na rua; só há rua. E só me resto eu. Vem-me à cabeça que a consciência de si (e sabe-se lá se dos outros também) é uma fatalidade tão e somente humana. Sinto-me humano e nu. Humano e falho, traído pelo Deus que descreio. Fecho a janela. Com a cortina, bloqueio a pouca luz que dela atravessa. O escuro surge como um paradoxo. Preenche o espaço, antes desagradavelmente nítido, de fumaça negra. Mas não conforta. Logo a insegurança adere à pele, funde-se a ela e impregna. Ainda sinto-me vigiado, não mais pelos passantes, agora pelos meus próprios demônios. A música repetidamente tocada pela árvore artificial de meu vizinho, que antes me era insuportavelmente desesperada, agora me serve como um colo, um consolo, uma vergonhosa certeza de que não estou completamente só na escuridão de minha casa. Surge-me então um leve aperto no peito, e um forte pensamento profano rapidamente impregna em minha mente: este deve ser o espírito natalino que todos, durante toda minha vida, falaram. A vergonhosa certeza que nos faz crer em algo ou alguma coisa, que nos faz tentar desesperadamente pertencer a uma realidade compartilhada, a um sonho lúcido, a ilusão de que há alguém para nós. De que, em algum lugar no tempo ou espaço, há algo para além de um quarto escuro, no completo vazio.

Um brinde à verdadeira essência de Cristo!


Juliana S. K.

8 comentários:

  1. Tu sempre se sobressaindo com essa tua escrita linda. Perfurando a alma daqueles curiosos que se atrevem a ler..

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  2. do meio da rua contemplo das janelas às calçadas, da rua aos transeuntes. olhos nos olhos de meus olhos, contemplo meus olhares e suas sentenças. meus olhos não estão aqui. nem os meus, nem os seus, nem os nossos olhos. nosso olhar foi infelizmente tomado por pensamentos. contemplamos fumaça. o que enxergamos é apenas adivinhação. as janelas fecharam, a calçada ficou suja, a rua decanta a poeira, os transeuntes deixaram o espaço desocupado assim como o céu negro da noite tornou o azul inexistente, assim como as estrelas parecem nos deixar por desaparecerem durante o dia, dia -- ilusão do sol -- que para aparecer aqui, desaparece acolá. não há como enxergar nada nesta tamanha escuridão onde tudo se movimenta. pelo menos percebo que as estrelas existem de fato, estão sempre lá, esteja o céu claro ou escuro, como portas secretas para a Liberdade. como disse o profeta isaías, Esperança, um dia este céu será aberto para a Verdadeira Luz.

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  3. Querida, estou disponibilizando em meu blog um espaço para propraganda ( na forma de postagem ou banner) de outros blogs( de escritores, livros, poesias, literatura) assim como o seu. Totalmente gratuito, com o interesse apenas de divulgar o conhecimento e a arte. Se interessado dá uma conferida no blog www.salvadornuaecrua.blogspot.com ou na comunidade novos escritores do brasil ( deixei um Link lá no tópico "Divulgue seu link...".
    No mais, eu já posto meus livros na net há mais de um ano. Por isso sei que o mais importante é nunca desistir dos seus objetivos nem dos seus sonhos.

    Qualquer coisa deixe um comentário...
    abraços Ojuarianos
    Helton ojuara

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  4. Bonito o seu conto. Me faz pensar em como, mesmo não acreditando propriamente nesse tipo de data, nós somos socialmente impelidos a nos sentir como os que crêem. No fim, cada um dá o nome que quiser a esses anjos, ou a esses demônios...

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  5. vc tem talento, mas pelo visto ta que nem eu, sem ideias ahahahaha, mas continue, o texto flue bem e tem uma ideia original

    http://nardiohead.blog.terra.com.br

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  6. A inquietação dos que refletem sobre a existência é inevitável. Pois instiga um conhecimento, uma sensação visceral de que há algo além nos esperando como bem disse. E isto torna tão vil a velha vidinha programada a ponto de tocar as plumas do desespero. Mas saiba que não precisa ser assim ... não precisa mesmo

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  7. Se pensar na sua vida, você é o protagonista de tal peça. Se pensar no universo, você é um figurante insignificante. Quanto mais penso mais instável eu fico e mais dúvidas surgem. Deve ser por isso que eu me dope com atividades sem sentido, para não me dar tempo para pensar.


    Sinto uma ansiedade quando leio o que você escreve. Não sei se continuo lendo por curiosidade ou masoquismo.

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  8. Gostei do seu estilo de escrever,e não tem como ler pela metade,pois o texto é extremamente cativante...Parabéns pelo blog tão recente,e farei parte para acompanhar futuros textos como este ok.Abraços e quando der me visite tá bom?
    http://alexmenegueli.blogspot.com.br/

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