
Transtornado, vigio da janela a calçada, a rua e os transeuntes. Penso no tempo e no espaço, e penso que o tempo e o espaço são privilégios, como o pensar, o pesar e o porvir. Sua condição de existência é seu observador. Sinto que seus olhos, os dos que ainda transitam por minha rua, de vez por quando retornam a mim. E eu, observador vigiado, faço pose. Talvez ao chegarem em seu destino não recordem mais de minha face, porque sei que os olho, e quem me olha sabe também, mas só eu sei que não os vejo. Não seriam assim, os malditos semelhantes? Quem os realmente veria, afinal, além dos mesmos e únicos que preocupam-se com sua desesperada existência? Os desconhecidos que passam suaves, como belos pontos de interrogação. E eu, maior que todos, melhor que todos, os observo com minha medíocre grandiosidade de todo ser que, em sua própria insignificância, existe. Volto a mim. O calor, que antes era constante e intenso, agora cessa. A noite não venta, mas seu hálito não chega morno. Pego nos ombros, amolecidos, e hesito em desprender o cabelo. Hoje não me sinto homem ou mulher. Sinto-me como um alguém, um qualquer, o anônimo que sempre tem medo de não ter nada a dizer. Observo o céu e tento ver um céu para além de mim. Imagino meu corpo em completa ausência, em negro. O céu surge, então, como sua própria explicação, um céu que é inexistente quando se ausenta das gentes que lhe dão um significado qualquer. Tento ir além, mas a respiração atrapalha. O vizinho, em sintonia com minha tentativa de afogar-me com todo oxigênio do quarto em uma única e profunda respiração, liga o som monofônico que é chamado de música natalina em sua magnífica árvore de natal. Procrastino o céu e o deixo ao acaso, como em muitos tenho feito. Volto os olhos ao chão. Já não há ninguém na rua; só há rua. E só me resto eu. Vem-me à cabeça que a consciência de si (e sabe-se lá se dos outros também) é uma fatalidade tão e somente humana. Sinto-me humano e nu. Humano e falho, traído pelo Deus que descreio. Fecho a janela. Com a cortina, bloqueio a pouca luz que dela atravessa. O escuro surge como um paradoxo. Preenche o espaço, antes desagradavelmente nítido, de fumaça negra. Mas não conforta. Logo a insegurança adere à pele, funde-se a ela e impregna. Ainda sinto-me vigiado, não mais pelos passantes, agora pelos meus próprios demônios. A música repetidamente tocada pela árvore artificial de meu vizinho, que antes me era insuportavelmente desesperada, agora me serve como um colo, um consolo, uma vergonhosa certeza de que não estou completamente só na escuridão de minha casa. Surge-me então um leve aperto no peito, e um forte pensamento profano rapidamente impregna em minha mente: este deve ser o espírito natalino que todos, durante toda minha vida, falaram. A vergonhosa certeza que nos faz crer em algo ou alguma coisa, que nos faz tentar desesperadamente pertencer a uma realidade compartilhada, a um sonho lúcido, a ilusão de que há alguém para nós. De que, em algum lugar no tempo ou espaço, há algo para além de um quarto escuro, no completo vazio.
Um brinde à verdadeira essência de Cristo!
Juliana S. K.