Sinto envelhecer, envelhecer rapidamente... E, de todas as falsas rugas que tento esconder, a que mais me dói é a do saber de tudo aquilo que me é uma simples questão de vaidade. E aqui estou eu, disfarçada de humana nua. Desfrutem daquilo que minto pra mim mesma.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma moeda pelo pensamento...

Na minha infância, ao me encontrarem fitando um ponto distante e abstrato, certas pessoas costumavam me oferecer uma moeda em troca do pensamento. Agora, ofereço minha resposta de graça àqueles que, depois de um riso quase mudo, ouviam-me dizer um "nada!", e mais nada.


Se quer saber, não é a lágrima de poeta e nem o riso da criança. É a indiferença que corrói. É o som abafado dos momentos que não compartilho, como uma doença que cresce e não sinto. É a mente que esfarela, desintegra... O estágio zero que mutila e desgasta. É o cansaço de coisa alguma sem movimento, a imagem estática de uma paisagem artificial. É ver se distanciar e não querer estender a mão. É não acolher a mente no corpo, é não acolher o corpo no meio... É perder o meio. É invalidá-lo e comê-lo, sem fome, sem olhá-lo, sem prazer. E o tempo, como o céu, infinito e distante, sem pressa, não liga. Desliga e não apodrece, virando semelhante, virando irmão. Não é a fertilidade infame, o romance romântico ou o amor destruído. Não, nada disso. É o gosto de ser traída por si, pela fortuna de energia e perspectiva adolescente que tem toda vida pela frente, transbordada de dor maquiada de dor que não dói, sem nem saber se dói, sem saber de nada. É a juventude vivida e perdida, distorcida, contorcida e contornada. É a inércia nata abstrata em sintonia com o universo. É, finalmente, a grande sensação que explode, a imensurável vontade absoluta de não falar, de não ter, fatalmente, mais nada a dizer.

5 comentários:

  1. eu gostei da tua escrita. os deslizes gramaticais tornam-se pequenos, quase que invisíveis, diante de palavras que, unidas, tocam as vísceras. e é isso que, a meu ver, faz de uma escrita realmente (e verticalmente) grande.

    agradecida pelo achado.

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  2. Gosto bastante das metáforas e de como as impressões vão se estruturando. Você é uma ótima escritora.

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  3. Haha! Uma adolecente que sofre para internalizar o "fazer" do mundo. Ainda bem que existe a trilha do "não-fazer" na qual a loucura é apenas loucura e nada mais, sem floreados.

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  4. Ironicamente o cérebro é um órgão, e como tal, sua consciência pode ser manipulada. O tédio ou empolgação. Eu, que tenho experiência nisso, sei que somos escravos da nossa própria vontade. Você não escolheu nascer como queria, e sua mente depende da sua genética, das alterações externas e internas ao decorrer da vida. Mas nada disso foi previamente escolhido por você. O livre arbítrio nada mais é que ilusão.

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